5# INTERNACIONAL 22.4.15

     5#1 A GNESE DO GENOCDIO
     5#2 AS NOVAS CARAS DA CHINA
     5#3 UM PRESENTE PARA A DITADURA

5#1 A GNESE DO GENOCDIO
H 100 anos tinha incio o massacre do povo armnio, na atual Turquia. Negar-se a coloc-lo entre os maiores crimes contra a humanidade impede que tragdias similares sejam evitadas.
DUDA TEIXEIRA

     Autoridades mximas da Igreja Catlica, os papas tambm tm, tradicionalmente, uma preocupao especial com cristos de outras denominaes. Em 1915, o pontfice Bento XV enviou uma carta ao sulto Mohamed V, do Imprio Otomano, pedindo o fim das crueldades contra o povo armnio, em sua maioria seguidor da Igreja Armnia Apostlica, que vivia na atual Turquia: "Fale com suas palavras poderosas e inspiradoras de paz e de perdo para que eles no sofram mais violncia nem perseguio. O povo armnio abenoar o nome do seu protetor". A resposta do sulto demorou quatro meses, e ele nada fez para conter a morte de 1,5 milho de armnios nos oito anos seguintes. No domingo 12, o papa Francisco voltou ao tema: "No sculo passado, nossa humanidade viveu trs tragdias sem precedentes. A primeira, vista geralmente como o primeiro genocdio do sculo XX, golpeou o vosso povo armnio". Em vez de provocar uma resposta vazia como a do sulto, a declarao enfureceu o governo de Ancara. "Condeno o papa e vou adverti-lo. Espero que no volte a cometer o mesmo erro", disse o presidente turco Recep Erdogan. 
     A negao do genocdio armnio  um dos poucos elementos em comum entre todos os governos que a Turquia j conheceu desde a queda do Imprio Otomano, em meio  I Guerra Mundial. O artigo 301 do Cdigo Penal considera crime contra a ptria turca a mera referncia ao massacre como um "genocdio". O termo foi cunhado em 1943 pelo advogado polons Raphael Lemkin em um livro sobre a Europa ocupada pelos nazistas que tambm menciona o caso armnio. Ainda que o genocdio tenha ocorrido trs dcadas antes da inveno do lxico, no h dvida de que ele  adequado para classificar os acontecimentos entre 1915 e 1923 na Turquia. A palavra genocdio, em sua origem, define um ato deliberado para aniquilar, em todo ou em parte, um grupo nacional, tnico, racial ou religioso. Trata-se, sempre, de um ato poltico. "Um genocdio no  como um terremoto ou um tsunami. Tampouco  uma exploso espontnea de dio entre grupos humanos.  uma escolha poltica, que exige planejamento e recursos", diz o professor de direito internacional iraniano Payam Akhavan, da Universidade McGill, no Canad. A data mais marcante no caso armnio  24 de abril de 1915, quando foras do governo prenderam 300 intelectuais, polticos e lderes religiosos armnios em Istambul. Eles foram torturados e enforcados ou mortos a tiros. Depois, milhares de armnios que estavam nas Foras Armadas tiveram o mesmo fim. Ordens eram enviadas por telgrafo pelo Ministrio do Interior, em Istambul, para que os cidados armnios fossem arrancados de casa e colocados a bordo dos trens que partiam para o deserto da Sria, que naquele tempo pertencia ao Imprio. As casas, fazendas e outros bens dos armnios no eram destrudos. Uma agncia oficial foi encarregada de organizar a transferncia dessas propriedades aos turcos. Como muitos armnios eram comerciantes e industriais, e portanto tinham um padro de vida melhor do que a mdia, isso incentivava mais confiscos e deportaes. Os armnios expulsos tambm foram exterminados por milcias curdas ou por batalhes formados por presos libertos. A maioria nem sequer chegou aos campos no deserto, pois morreu de fome, sede e frio no caminho. Mulheres e meninas foram violentadas e tomadas como escravas. 
     A posio do governo turco  que nunca houve uma inteno coordenada de aniquilar o povo armnio. O que existiu, segundo essa verso, foi uma resposta dada em tempos de guerra a uma ameaa interna: a guerrilha armnia, que apoiou a luta contra os otomanos. "Um genocdio  sempre apresentado como uma ao de legtima defesa por parte dos que se dizem sob ameaa. Mas so eles, na realidade, os perpetuadores do genocdio", afirma o advogado e professor de direitos humanos canadense Ren Provost, e completa: "Os alemes diziam que os judeus eram uma ameaa. Em Ruanda, os hutus se diziam vtimas da minoria tutsi". 
     O termo cunhado por Lemkin encontrou no holocausto o seu paroxismo, cuja revelao para o mundo tambm faz aniversrio. H setenta anos, em abril de 1945, quando a II Guerra Mundial se aproximava do fim, as tropas russas e aliadas liberaram sete campos de concentrao nazistas, descobrindo e expondo atrocidades inimaginveis. Em 1948, uma conveno da ONU sobre genocdio criou as bases para a preveno e a punio desses atos. Embora clara, a concluso no traava parmetros que pudessem ser usados para uma interveno internacional. Desde a II Guerra, houve trs episdios que podem ser facilmente includos na definio. Em 1994, membros da maioria hutu, estimulados pelo governo, chacinaram 800.000 tutsis em Ruanda. No ano seguinte, na antiga Iugoslvia, os srvios comearam a matar bsnios e croatas. Estima-se que 100.000 morreram. Em 2003, o governo de Ornar Bashir, no Sudo, enviou milcias rabes para aniquilar a populao de 400 vilas na regio de Darfur. O extermnio alcanou 300.000 pessoas. A comunidade internacional falhou em evitar essas tragdias. Quando o massacre de Ruanda estava em andamento, uma funcionria do Conselho Nacional de Segurana (CNS) dos Estados Unidos chegou a afirmar que, se o governo americano chamasse o episdio de genocdio sem fazer nada, isso prejudicaria os democratas nas eleies para o Congresso. A autora da frase  Susan Rice, a atual chefe do CNS. 
     Alguns estudiosos consideram que a definio de genocdio  muito estreita. Os 2 milhes de mortos nas mos do Khmer Vermelho, no Camboja, e os expurgos do sovitico Josef Stalin no entram na categoria porque tinham motivao ideolgica, e no tnica ou religiosa. Menos controversa  a atribuio de crimes de genocdio a grupos terroristas. "As atenes do mundo sempre estiveram voltadas a genocdios cometidos por Estados nacionais, mas grupos como o Isis esto mudando essa percepo", diz o americano Tod Lindberg, que coordenou uma comisso sobre preveno de genocdios na ONU. No ano passado, ao conquistarem territrios no norte do Iraque, os radicais islmicos do Isis entraram em vilas da minoria religiosa yazidi. Os homens foram imediatamente exterminados. As mulheres e as meninas, a exemplo do que aconteceu no genocdio armnio de 1915, foram escravizadas e estupradas. Nas montanhas de Sinjar, no Iraque, milhares de yazidis morreram de frio, fome e sede. A rpida identificao e classificao de um genocdio pode ajudar a cont-lo mais cedo. Isso fica mais fcil quando se tem tambm a coragem de reconhecer os genocdios do passado. O Brasil e os Estados Unidos evitam chamar a tragdia de 1915 de genocdio. Cem anos depois,  hora de dar um passo  frente. 
COM REPORTAGEM DE PAULA PAULI

O CASO AMERICANO
Genocdio, limpeza tnica ou uma sequncia de atrocidades? Desde o ano em que Cristvo Colombo pisou nas Amricas, em 1492, a populao indgena do que hoje  o territrio dos Estados Unidos despencou de 10 milhes para 300.000. Segundo alguns historiadores, as comunidades indgenas sofreram uma perseguio institucionalizada com o intuito de extermin-las, o que caracteriza genocdio. Contudo, o largo espao de tempo e a variedade de fatores que causaram a reduo dessa populao levam a crer que o conceito s pode ser aplicado em situaes especficas. As doenas trazidas pelos europeus foram o que mais matou indgenas. Uma dezena delas contaminou os nativos em quase 100 ondas epidmicas entre 1600 e 1800. A mais letal foi a varola. Houve contgio intencional, mas essa no foi a regra. O avano em direo ao oeste em busca de ouro e outras riquezas obrigou os ndios a abandonar terras que cultivaram por geraes. Sem comida, doentes e ameaados pelo Exrcito, milhares morreram no caminho. Genocdio? No h consenso em relao a isso, pois o intuito de extermnio no estava explcito. Em outras ocorrncias, fica evidente. Nos anos 1650, a colnia britnica de Massachusetts massacrou a tribo pequot, que vivia onde hoje  Connecticut, e vendeu os sobreviventes como escravos. "Eles queriam erradicar a cultura e o povo pequot. Nesse caso, no h dvida de que houve um genocdio", diz o historiador Justin Power, da Universidade West Virgnia. Fatos similares aconteceram mais de 200 anos depois na Califrnia, quando o estado ofereceu prmios em dinheiro por ndio assassinado. 
NATHALIA WATKINS


5#2 AS NOVAS CARAS DA CHINA
O gigante oriental j no cresce como antes. Mais rico, porm, aumenta o seu consumo de produtos avanados e reduz a importao de commodities brasileiras
MARCELO SAKATE

     H dois anos, o CEO da Apple, Tim Cook, fez uma previso: a China vai se tornar o principal mercado para os produtos da empresa, superando os Estados Unidos. Isso deve se concretizar nos prximos meses. Em um ano, as vendas de iPhones e de outros produtos da companhia americana subiram 70% no pas asitico. Trata-se de um mercado em que 520 milhes de pessoas possuem um smartphone. A China foi um dos oito pases selecionados para o incio das vendas do Apple Watch, o relgio computadorizado da companhia, marcado para a prxima sexta-feira, 24 (ele est disponvel em pr-venda desde o dia 10). As palavras de Cook, o sucessor de Steve Jobs, do ideia da transformao pela qual passa a segunda maior economia do mundo. Mais ricos, os chineses mudam o seu padro de consumo e tambm os vetores de seu progresso material. Os motores do crescimento ento vigentes, que eram os investimentos vultosos em infraestrutura e a exportao de mercadorias pouco elaboradas fabricadas por trabalhadores de baixo salrio, perdem espao. A economia se diversificou e, como ocorreu em outras naes que saram da pobreza para alcanar nveis mais elevados de desenvolvimento, o pas comeou a demandar menos produtos bsicos, como o minrio produzido pela brasileira Vale, e a consumir mais produtos e servios de tecnologia avanada, como os equipamentos americanos ou os carros europeus. 
     A mudana segue, at certo ponto, o planejamento minucioso do Partido Comunista. O objetivo  reestruturar a economia para torn-la mais equilibrada, contendo os excessos do investimento estatal e as bolhas infladas pelo crdito farto. A transio requer uma desacelerao no ritmo de crescimento, e por isso envolve riscos. O avano do PIB no primeiro trimestre foi de 7%, o segundo ndice mais fraco desde 2001. As projees mostram que o resultado do ano deve ficar em 6,8% (abaixo do avano previsto para a ndia, de 7,5%, segundo o Fundo Monetrio Internacional, uma inverso que no ocorre h dezesseis anos). O ritmo de 10% ao ano, frequente na dcada passada e que consagrou a expresso "taxas chinesas de crescimento", faz parte do passado. Ainda assim, como o pas  mais rico, crescer "meros" 7% hoje equivale a um avano do PIB de 14% em 2007, em termos de aumento da riqueza, porque a base atual  maior. Com a urbanizao, a abertura de empregos muda da indstria para o setor de servios, que liderou a criao de 13 milhes de postos no ano passado. 
     A nova cara da economia chinesa pode ser vista tambm na expanso internacional de seus empreendedores. No ms passado, a estatal ChemChina aceitou pagar 7,7 bilhes de dlares para adquirir o controle da italiana Pirelli, uma das lderes mundiais em vendas e em inovao na produo de pneus (, por exemplo, a fornecedora da Frmula 1). H um ano, a Dongfeng pagou 1,1 bilho de dlares para se associar ao centenrio grupo automotivo francs PSA Peugeot Citroen. Adquirir esses negcios representa ter acesso  tecnologia criada por essas companhias, e assim absorver conhecimento para fabricar produtos avanados, cones do mercado global de consumo de luxo tambm esto no alvo. A Fosun concluiu no incio do ano a compra do Club Med, a rede francesa de resorts de altssimo padro. 
     Para os parceiros comerciais chineses, a transformao tem efeitos distintos. Quem se beneficiou nos ltimos anos do enorme apetite chins por recursos naturais, caso notrio do Brasil, sofre com as mudanas. A economia asitica permanece como a principal compradora das exportaes brasileiras. As vendas, porm, recuaram 35% no primeiro trimestre deste ano em relao ao mesmo perodo de 2014, de 9,6 bilhes de dlares para 6,2 bilhes de dlares. A explicao est relacionada essencialmente  queda do preo da soja e do minrio de ferro. Para a economia brasileira e a balana comercial, o aumento das compras chinesas de produtos com algum grau de elaborao industrial, como ferroligas e ctodos de cobre, est longe de compensar a queda nas vendas de commodities. 
     Para a Apple, a nova China  motivo de jbilo. Para o Brasil, iludido com a riqueza transitria durante o ciclo de valorizao excessiva dos produtos bsicos, ela tem sido motivo de consternao.

A economia da China desacelera...
Crescimento anual (em %)
2011 9,3%
2012 7,8%
2013 7,8%
2014 7,4%
2015 (estimativa) 6,8%
2016 (estimativa) 6,3%

...e atinge as exportaes do Brasil
Variao das vendas brasileiras para o pas asitico (em dlares, no primeiro trimestre) (* Em relao ao mesmo perodo de 2014)
Soja -1,8 bilho (-47%)
Minrio de ferro -1,9 bilho (-55%)
Vendas totais -3,4 bilhes (-35%)

COM REPORTAGEM DE ISABELLA DE LUCA


5#3 UM PRESENTE PARA A DITADURA
Barack Obama ignora as evidncias e inicia procedimento para retirar Cuba da lista de pases que patrocinam o terrorismo. 

     O presidente americano Barack Obama disse na semana passada que pretende remover Cuba da lista de apoiadores do terrorismo, na qual o pas figura ao lado de Sria, Sudo e Ir. O procedimento, que dificilmente poder ser bloqueado pelo Congresso, ter efeito dentro de 45 dias e  um trofu para o governo cubano, que com ele nas mos poder obter emprstimos a juros menores em bancos de outros pases. "Cuba no patrocinou terrorismo nos ltimos seis meses e deu garantias de que no o far no futuro", escreveu Obama em um relatrio enviado aos parlamentares americanos. Ele no esclareceu quais foram as garantias dadas e tambm no exigiu nenhuma contrapartida da ditadura. "Tudo indica que a deciso foi poltica. Cuba j reiterou diversas vezes seu compromisso ideolgico com pases como Rssia, Coreia do Norte, Nicargua e Venezuela", diz Douglas Farah, especialista americano em trfico de armas e drogas. 
     H, sim, evidncias de ligaes do governo cubano com o terrorismo. Em maro deste ano, foi interceptado um barco de bandeira chinesa com 100 toneladas de plvora, 99 projteis e 3000 balas de canho em Cartagena, na Colmbia, com destino  ilha caribenha. A suspeita  que os cubanos teriam participao no contrabando de armas para as Foras Armadas Revolucionrias da Colmbia (Farc). A histria tem precedente. Em 2013, o regime castrista foi flagrado aps embarcar jatos de guerra e outros armamentos para a Coreia do Norte. O material estava escondido sob 10.000 toneladas de acar. O pas asitico, comandado pela ditadura mais fechada do mundo, h dcadas exporta msseis para grupos terroristas, como o libans Hezbollah e o palestino Hamas, e para regimes prias, como os do Ir e da Sria. Outro ponto a ser levado em considerao  que os emissrios dos irmos Castro controlam a inteligncia e a imigrao da Venezuela, por onde transitam militantes do Hezbollah e do Hamas. Cuba foi includa na lista em 1982 por patrocinar e treinar grupos armados, como o espanhol ETA e as Farc. A ilha ainda serve de refgio para dezenas deles, incluindo americanos procurados pela Justia dos Estados Unidos e da Espanha. Ao ignorar esses fatos, Obama repete a estratgia usada nas negociaes sobre o programa nuclear do Ir, em que os Estados Unidos entraram dispostos a conseguir um acordo a qualquer custo. A inteno declarada  apoiar (no glossrio democrata, "empoderar") o povo cubano e o iraniano. Facilitando emprstimos para Cuba, porm, Obama fortalecer os militares, que comandam quase a totalidade dos negcios na ilha. 
NATHALIA WATKINS


